O livro “O apanhador no campo de centeio” de J.D Salinger nos fala sobre um adolescente que esta naufragando, que está na luta pela sua maturidade.
Essse livro é importante nos dias de hoje, com o fenômeno do vazio existencial que acomete grande parte das pessoas, que estão frustradas existencialmente, sem rumo, sem conexão com valores e com uma vida vazia de significado e sentido. Ele dialóga com o fenômeno da adolescência tardia/emergente, que é o prolongamento da fase de transição da vida adulta que observamos na atualidade.
De fato, certos marcos tradicionais que eram comuns no passado em uma idade mais tenra, como sair da casa dos pais, se casar, ter uma casa própria, estão acontecendo muito mais tarde.
O livro começa falando, em primeira pessoa, o que aonteceu a Holden Caulfield no último Natal, antes dele sofrer um colapso nervoso e ser mandado para uma clínica de recuperação/psiquiátrica. Nesse local, presumimos que ele está passando por um processo terapeutico, e ele conta aos seus ouvintes (nós, os leitores) todos os últimos acontecimentos que o levaram a tal situação.
Holden tinha sido expulso do colégio interno Pencey Prep logo antes das férias de Natal por ter repetido em quase todas as matérias. Ele não quer encarar os pais antes do momento em que eles receberiam a carta oficial da expulsão, portanto, decide fugir do colégio alguns dias mais cedo e pegar um trem para Nova York. A partir disso, ele vive um período de vadiagem, em que passa cerca de três dias vagando sozinho por Nova York, hospedando-se em hotéis baratos, indo a bares, encontrando conhecidos e tentando adiar ao máximo o momento de ir para casa, até o momento de seu colapso nervoso.
Em uma das passagens do livro, lemos:
– Você não sente nenhum remorso por deixar o Pencey?
-Ah sinto sim, de verdade… mas não muito. Pelo menos até agora não. Acho que a coisa ainda não me tocou de fato. É preciso de algum tempo para que um troço me atinja realmente. Só estou pensando agora em voltar para casa quarta feira. Sei que não tenho jeito mesmo.
-Você não se preocupa nem um pouco com o seu futuro, rapaz?
-Me preocupo sim, evidentemente. Pensei um bocado no assunto. Mas não muito, eu acho. Não muito.
Pois você ainda vai se preocupar. Vai mesmo rapaz. Você vai se preocupar quando já for tarde demais.
Durante a leitura desse livro, é como se estivessemos sentados ao lado de Holden escutando ele contar tudo o que lhe ocorreu. Somos seu ouvinte, uma pessoa que está alí para compreender o que ele viveu e passou (o interessante é que Holden começa a contar a sua história nessa clínica e o livro termina nessa mesma clinicia, com ele finalizando a sua história).
OBS: Eu utilizei como referência para fazer a análise do livro “O apanhador no campo de centeio” o livro “Mapa da maturidade”, de Fransciso Escorsim e Jota Borgonhoni. Muito do que eu falar aqui nesse post são as ideias desses autores a respeito do livro de Salinger.
E qual é a trama principal do livro? Holden é um adolescente, com dificuldades para entrar na vida adulta, na verdade se recusando a fazê-lo. Ele vive uma angústia existencial: por um lado a pressão do mundo adulto que o absorve e, por outro, a resistência a crescer para se manter puro como às crianças.
Na visão de Holden, a vida adulta é um fingimento, uma hipocrisia, uma certa encenação e representação fingida de papeis sociais inautenticos. Em todo adolescente existe esse conflito, uma parte que não quer perder a infância e outra que exige a vida adulta, que é de certo modo deixar a infância para trás.
Holden enxerga o mundo adulto como um mundo de falsidades, ao mesmo tempo em que idealiza a infancia como um período de pureza e autenticidade. Ele enxerga a maturidade como uma corrupção da pureza e da autenticidade que só existem na infância. Ele teme que, ao se tornar adulto, será obrigado a adotar máscaras sociais, mentir e participar de convenções que ele despreza profundamente.
O título do livro resume perfeitamente a angústia de Holden sobre o amadurecimento. Quando sua irmã Phoebe lhe pergunta o que ele gostaria de ser na vida, ele fantasia em ser um “apanhador” em um campo de centeio à beira de um penhasco:
“O que eu tenho que fazer é segurar as crianças se elas começarem a correr em direção ao precipício — quero dizer, se elas não olharem por onde vão, eu tenho que aparecer de algum lugar e segurá-las.”
Nessa metáfora, as crianças brincando representam a inocência da infância, e o precipício é a queda inevitável na vida adulta. O desejo de Holden não é apenas salvar os outros, mas salvar a si mesmo dessa “queda”.
Ele sabe que não quer crescer, mas ao mesmo tempo ele não pode não crescer. Essa tensão, de tentar se manter criança e ter de se tornar um adulto, começa a ficar cada vez maior, tanto que ele tenta fugir desse tensão e angústia por meio de distrações e prazeres superficiais, ele vai para a bebida, para o fumo, o sexo. Ele começa a se angustiar de tal modo até chegar a ter um colapso nervoso. A adolescência, a imaturidade é nunca atravessar a linha de sombra para a vida adulta e ficar girando no mesmo lugar.
NÃO QUERER CRESCER NÃO É FICAR INFANTIL, É FICAR DOENTE. A IMATURIDADE DEPOIS DE CERTO PONTO NÃO É MAIS UMA INFANTILIDADE, ELA VIRA UMA DOENÇA PSICOLÓGICA PORQUÊ VOCÊ FICA INCAPAZ. Todo “adultecente” depende de alguém, emocionalmente ou financeiramente, porque já não sabe o que fazer consigo mesmo. Não consegue se manter por si só, não só do ponto de vista material, mas também do existencial.
Esse é o drama de Holden, é uma tragédia pois ele sabe que não existe outra alternativa senão amadurecer. Na verdade, ele não quer a outra alternativa, e não querê-la o leva ao hospital.
O que está em jogo aqui? O fato de que Holden precisa enfrentar a vida e sair desse estado de indefinição.
Em um dos diálogos do livro, em que Holden vai buscar ajuda a um de seus antigos professores (que lhe serve como uma espécie de modelo e mentor), o professor diz a Holden:
-Francamente, Holden, não sei o que lhe dizer (…) Tenho a impressão de que você está caminhando para uma espécie de queda… uma queda tremenda. Mas, honestamente, não sei de que espécie. Está me ouvindo?
-Estou.
-Talvez da espécie que faz com que a gente, aos 30 anos, se sente num bar e odeie todo mundo que entra com jeito de quem jogou futebol numa universidade. Ou, então, você conseguirá intruir-se o bastante para odiar todo mundo que diz “É um segredo entre mim e você”. Ou talvez acabe em algum escritório, atirando clipes na taquigrafia mais próxima. Não sei mesmo. Mas você entende o que estou querendo dizer, não entende?
-Entendo.
Ou seja, o que esse diálogo diz é que Holden vai ser o tipo de fracassado que chega aos 30 anos e tem ódio de qualquer pessoa bem sucedida. Talvez sua queda seja o resultado de um complexo de inferioridade.
O professor continua e diz:
-Esta queda para a qual você está encaminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo oubir ou sentir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não lhes podia proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não lhes poderia proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes mesmo de começá-la de verdade. Tá me entendendo?
(…) “A característica do homem imatura é aspirar a morrer nobremente por uma causa, enquanto a característica do homem maduro é querer viver humildemente por uma causa (…) Acho que um desses dias você vai ter que decidir para onde quer ir. E ai vai ter que começar a ir para lá. E sem perda de tempo…”
O homem imaturo é aquele que não faz nada e não decide nada e Holden se encontra exatamente nesse momento de sua vida em que tem de tomar uma decisão.
O professor continua e solta uma grande gema de sabedoria:
(…) Na hora em que você conseguir deixar para trás todos os Professores Vinsons, você vai começar a se aproximar cada vez mais, isto é, se você quiser, e se procurar, e se tiver paciência de esperar, da espécie de conhecimento que será muito, muito importante para você. Entre outras coisas, você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno e se sentira estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, engrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardam um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, se você tiver alguma coisa a oferecer, alguém ira aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia. “
Não importa se você gosta da sociedade ou da vida adulta, no final, a vida é isso, encarar os hipócritas e falsos, engolir tudo e se tornar maior e mais forte. Fugir de tudo isso só fara a pessoa ficar doente. Holden é um menino assustado que está fugindo da vida adulta e essa fuga o deixa doente. A epidemia de depressão que nós vemos nos dias de hoje tem muito a ver com essa imaturidade.




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