No livro “Cristianismo puro e simples” de C.S Lewis, o autor explica em um dos capítulos sobre o problema do orgulho, que é considerado pelos mestres cristãos como a raiz de todos os vícios/males.
Já no livro de Monsenhor Ascanio Brandão chamado “A humildade”, é explicado sobre como a virtude é a raiz de todas as virtudes, sendo ela a virtude oposta ao orgulho (e explica a forma de como podemos eliminar o orgulho de nossas vidas).
C.S Lewis comenta a respeito do orgulho o seguinte:
“Há um vício do qual ninguém no mundo está livre. Não há defeito que torne uma pessoa menos popular e nenhum do qual tenhamos menos consciência do que esse vício. E quanto mais o temos, mais o detestamos no outro. O vício a que me refiro é o ORGULHO ou a PRESUNÇÃO e a virtude oposta a ele, na moral cristã, é chamada de HUMILDADE.”
CS LEWIS
Ele continua comentando:
“De acordo com os mestres cristãos, o pecado capital, o mal supremo, é o ORGULHO. A falta de castidade, a raiva, a avareza, a bebedice e tudo o mais são meras fichinhas com comparação: foi pelo Orgulho que o diabo se tornou o diabo; o Orgulho leva a todos os outros vícios, trata-se do estado de mente completamente contrário a Deus.”
Para você descobrir o quanto é orgulhoso, a forma mais fácil de fazê-lo é se perguntar: “Quanto eu detesto quando outras pessoas me inferiorizam ou se recusam a me dar atenção, ou dão palpite, ou são condescendentes comigo, ou são exibidas?”
“A questão é que o orgulho de cada pessoa está concorrendo com o orgulho de todos os demais. É porque eu quis ser o destaque da festa que estou tão chateado que outra pessoa o tenha sido. O que essa frase evidencia é que o orgulho é essencialmente competitivo, e o é por natureza. O Orgulho não tem prazer em ter algo, mas apenas em ter mais do que o próximo. É a comparação que faz uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima dos demais. Uma vez que o elemento de competição tenha sido eliminado, o Orgulho também o será; por essa razão que sustento que o Orgulho é essencialmente competitivo, mas de uma forma que os outros vícios não são.“
CS LEWIS
CS LEWIS continua dizendo que:
“Quase todos aqueles males do mundo que às pessoas atribuem a cobiça e ao egocentrismo são, na verdade, muito mais resultado do Orgulho. O orgulho sempre significa inimizade, ele é a inimizade em pessoa. E não apenas inimizade entre pessoas, mas inimizade para com Deus. Em Deus, você se depara contra algo que é incomensuravelmente superior. A menos que você conheça bem a Deus e, por isso, saiba que não é nada em comparação com Ele, não o conhece de jeito nenhum. Enquanto você for orgulhoso, não poderá conhecer a Deus. Uma pessoa orgulhosa está sempre desdenhando coisas e pessoas, e, é claro, se você fica olhando de cima para baixo, não poderá olhar para nada que esteja acima de você.”
E ele termina dizendo que: “Se alguém quer adquirir humildade, penso que poderia lhe dizer qual é o primeiro passo: reconhecer o próprio orgulho. Trata-se de um passo bem grande, aliás. E nada poderá ser feito antes disso. Se você pensa que não está sendo prepotente, está, na verdade, sendo prepotente demais.
Vivemos na geração do orgulho e do amor próprio
Os trechos abaixo são da obra do Luis Henrique Carmelo chamada “Torna-te o que és”:
Vivemos nessa época de discursos baratos sobre autocuidado, autoestima, que distorcem a noção daquilo que é a pessoa humana e o caminho para a sua verdadeira realização.
A confusão que presenciamos hoje está em pensarmos que uma pessoa que tem amor próprio é aquela que vive num movimento continuo de autobajulação, de “automimo”, de satisfação dos prazeres, experimentando tantos hobbies e divertimentos quanto se possa suportar, deve-se ainda, fazer pouco caso dos outros e não se responsabilizar por ninguém. Isso para muitos soa como liberdade e amor, mas na verdade não passa de um caminho de despersonalização, com ações libertinas e irresponsáveis. Deixando de amar, servir e se entregar ao mundo no fiel cumprimento dos seus deveres, logo estarão cheias de vazio e odiando-se a si mesmas.
Este olhar muito atento e preocupado consigo mesmo acaba por revelar às tendências egocêntricas, neuróticas e narcisistas e autorreferentes. Com frequencia, passamos a conceber os outros como meros meios para obtenção de nossos prazeres e o mundo como um espaço para satisfazer às nossas necessidades basilares. Tornam-se pessoas mesquinhas, ensimesmadas, dinheiristas, hedonistas, doentes, sim, doentes, pois aquilo que frustra nossa dinâmica própria nos adoece!
A dinâmica própria do ser humano, aquilo que é específico do ser humano (que não se encontra em nenhum outro animal) é a sua capacidade de autotranscendencia, que se expressa nessa capacidade do homem elevar-se, de ir além de si, de sair de si. A essência do ser humano se revela quando ele vai além de si mesmo. Significa dirigir-se para algo além de si, algo que não seja o próprio eu. A essência da existência humana está radicada na sua autotranscendência:“A existência humana não é autêntica se não for vivida em termos de autotranscendência” Frankl
“Ser homem significa, de per si e sempre, dirigir-se e ordenar-se a algo ou alguém, entregar-se o homem a uma obra a que se dedica, a um homem que ama, ou a Deus a quem serve” Frankl
A autotranscendência arranca o homem de uma vida meramente impulsiva e fechada, uma vida vivida somente em função de si mesma. Quando falta ao homem a capacidadade de sair de si mesmo e ele se fecha de maneira egoísta nas próprias necessidades, quando ele se coloca como o centro do universo ou até mesmo de sua própria existência, buscando apenas seus interesses, sem um mínimo movimento de abertura, é possível afirmar que a existência está declinando, assumindo um lugar mais baixo no podium dos seres viventes.
Este é um amor-próprio autodestrutivo, um amor de si contra si, um amor filaucia, como diriam os gregos. Você, erroneamente, se ama tanto, se poupa tanto, que acabará por se destruir por completo. A filáucia é a origem de todas às desordens, de todos os vícios capitais. O amor verdadeiro está na oferta genuína e responsável que fazemos de nós mesmos.
Neste caminho se faz necessário um descuidar de si mesmo para então concentrar os pensamentos no além de si. Mas esse esquecimento não é algo que aponta para um desleixo, um abandono irresponsável de si mesmo. Iso em nada está em desacordo com aquilo que poderiamos chamar de um amor próprio – no sentido mais exata e profundo do termo, pois sou tão mais responsavel, cuidadoso e amoroso comigo próprio quanto mais eu vivo endereçado a verdade e agindo de modo humano. Isso posto, podemos dizer que amar-se é, em ultima instância, entregar-se.
“Só na medida em que nos entregamos, nos sacrificamos e nos abandonamos ao mundo e aos deveres e exigências que a partir dele se introduzem em nossa vida, só na medida em que nos importa o mundo externo e os objetos, porém não nós mesmos ou nossas próprias necessidades, só na medida em que cumprimos com nossas obrigações e exigências e realizamos sentidos e valores, nesta medida realizamos a nós mesmos” – VIktor Frankl
Por isso, o ser humano “só chega a se realizar quando se esquece e se supera a si mesmo” Frankl
“Em tudo o que fiz, mostrei a vocês que mediante trabalho árduo devemos ajudar os fracos, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus, que disse: ‘Há maior felicidade em dar do que em receber” Atos 20:35
“Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.” Filipenses 2:4
A Humildade
― Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu, e o outro era publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens — ladrões, injustos, adúlteros — nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”. ― O publicano, porém, ficou a distância. Ele nem sequer ousava olhar para o céu, mas, batendo no peito, dizia: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador!”. ― Eu digo que este homem, não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado – Lc 18:10
De acordo com Santo Agostinho, “a humildade é o desprezo de si até o amor a Deus, enquanto o orgulho é o amor de si mesmo até o desprezo de Deus”
“A humildade é o tesouro de nossa vida espiritual, tudo nos vem com ela e sem ela nada alcançamos de Deus” – Monsenhor Ascanio Brandão
“Sempre que nossa vida religiosa está nos fazendo pensar que somos bonsm acima de tudo, que somos melhores do que os outros, certamente estamos sendo influenciados não por Deus, mas pelo diabo. A prova real de que você está na presença de Deus é que você ou esquece completamente de si ou se vê como um objeto pequeno e sujo. O melhor é esquecer completamente de si.“
CS LEWIS
Santa Teresa no diz que “A humildade é a verdade” – Por que? Pois ela é um ato da inteligência e da vontade: a inteligência que nos faz reconhecer a nossa miséria e pequenez, reconhecendo a grandeza de Deus e a vontade que se abate e humilha.
Os santos conhecem mais a Deus, por isso são mais humildes. De fato, o conhecimento de Deus nos deixaria mais orgulhosos ou mais humildes? O orgulho é fruto de nossa ignorância a respeito do que é Deus, do que somos e do que podemos.
Haverá maior realidade do que o nosso nada e nossa miséria? Para compreender a humildade basta abrir os olhos e ver a realidade, ver às coisas como elas são, sem ilusões ou fantasias.
Ser humilde é ser verdadeiro. Reconhecer e confessar a nossa miséria, nosso nada. Mais ainda, aceitar essa condição miserável.
A humildade é o conhecimento de si mesmo sem às llusões do amor próprio, uma luz que faz o homem se conhecer e conhecer melhor a Deus. A humildade é uma virtude sobrenatural que, pelo conhecimento que nos dá de nós mesmos, nos inclina a nos estimarmos em nosso justo valor e a buscarmos o abatimento e o desprezo.
“SENHOR, QUE EU ME CONHEÇA E QUE EU VOS CONHEÇA” – SANTO AGOSTINHO
Santo Agostinho rezava a seguinte oração:
Noverim me, nouerim te!, diz Santo Agostinho: — Que eu me conheça, ó Senhor, e que eu Vos conheça!
Noverim me ut despiciam me! – Que eu me conheça para que me despreze!
Noverim Te ut amem Te! – Que eu Vos conheça, para que Vos ame!
Quando a alma, esclarecida de sua condição, pode dizer ao Senhor: “Nada sou, nada tenho e nada posso. Só tenho de próprio a miséria e o pecado, o nada. Na ordem sobrenatural e natural nada tenho e tudo recebi de Vós”
Nosso Senhor apareceu a Santa Catarina de Sena e lhe disse: “-Sabe minha filha o que és e ou que Eu Sou? Se aprenderes bem estas duas coisas será bem aventurada. Tu és a que não és, e eu sou Aquele que sou”
“A alma verdadeiramente humilde é a que reconhece o que eu posso e o que ela não pode” Jesus revela a Santa Teresa
Os santos foram humildes porque viviam da verdade, esta verdade que choca o nosso tremendo orgulho: Somos nada, somos miseráveis, nada somos, nada temos e nada podemos.
A humildade é necessária para se chegar a perfeição, sendo a perfeição a Caridade, o amor divino. Deus não concede o seu amor divino aos orgulhosos, por isso a humildade é fundamento, o alicerce e condição de toda a perfeição Cristã.
“Quereis elevar bem alto o edifício da perfeição? Pensai antes de mais nada em cavar bem fundo os alicerces da humildade” – Santo Agostinho
“A primeira virtude dos cristãos é a humildade” Afirma São Jerônimo
“Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” Tiago 4:6
“A humildade é companheira da caridade e a caridade da humildade. E ambas destroem o orgulho” – São Prospero
“Para obter o amor divino, só há um meio: humilhar-se” Santa Madalena de Pazzi
“O homem chega a humildade por dois meios: em primeiro lugar e antes de tudo pela graça e em segundo lugar pelos esforços constantes que faz para reprimir os defeitos exteriores contrários a humildade e extirpá-los. E depois, cortar a raíz oculta do orgulho. “ SANTO TOMÁS
Para adquirir humildade é preciso orar e orar muito. Pedir a Deus a Graça de Humildade. “Meu Deus! Que eu Vos conheça e me conheça. Senhor! Fazei-me bem humilde, bem pequenino, livrai-me das ilusões perigosas do meu amor próprio.”
Precisamos ser como crianças, como é dito nos Evangelhos. Nada mata o amor próprio como o espírito de criança. Todos queremos ser grandes, ninguém se conforma com a sua pequenez, com suas misérias e fraquezas, poucos aprendem aquela ciência de se gloriar de suas própria enfermidades. Como Santa Teresa diz, para se aproximar de Jesus, precisamos ser bem pequeninos. O Reino dos Céus é dos pequeninos e dos humildes de coração.
Evitar a humildade falsa que se humilha para receber elogios. A humildade tem que ser discreta e singela. Evitar falar bem de si mesmo, Ser reservado nas palavras, gestos e atitudes. Não querer parecer mais do que somos. Evitar os ares de gente grande ou rica, atitudes de piedade exagerada e de singularidade. Procurar ser bem comum, bem como toda gente.
A São Franciso de Borja perguntou um homem o que ele deveria fazer para se santificar. O Santo lhe respondeu: “Meu amigo, pense todo dia na sua miséria e se humilhe perante a Deus. Ver-se miserável e recorrer a sua misericórdia”




Deixe um comentário