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Em Tempos de Crises, Precisamos de Homens Teóricos (G.K Chesterton)

Tempo de leitura: 7 min

Escrito por Davi Klein
em dezembro 9, 2025

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“O principal trabalho do homem intelectual de hoje é recordar as verdades que são óbvias” – GK. Chesterton

As grandes crises e lutas ocorrem numa dimensão mais profunda, a intelectual e espiritual. Nos tempos modernos, existe um foco na eficiência – você descobre tudo sobre algo, exceto para que esse mesmo algo serve.

“Um interesse que qualquer pessoa culta não pode deixar deter é o de compreender o próprio tempo, a época em que está vivendo, as suas principais caracteristicas, as suas tendências, as suas diferenteças em relação a outras épocas. Se não se tem uma ideia, mesmo vaga e genérica, do próprio tempo, é dificil orientar-se na vida, nas próprias escolhas, profissionais, sociais, politicas e culturais. É verdade que nem todos podem ter, conscientemente, ou explicitamente, esse tipo de interesse, assim como nem todos têm o mesmo nível de cultura. Mas parece-me bastante evidente que uma pessoa considerada “culta” deve ter alguma ideia a esse respeito.” -Do livro “Convite a filosofia de Enrico Berti

Em seu livro “O que há de errado com o mundo”, Chesterton, no capítulo “Procura-se: homem não prático”, comenta o seguinte:

“Em nossa época, despontou uma fantasia singularissima: a de que, quando as coisas vão muito mal, precisamos de um homem prático. Seria muito mais verdadeiro dizer que, quando as coisas vão muito mal, precisamos de um teórico. Um homem prático é alguém acostumado a mera prática cotidiana, a maneira como as coisas funcionam normalmente. Quando as coisas não estão funcionando, é preciso do pensador, do homem com uma doutrina que explica por que elas não estão funcionando. Enquanto Roma arde em chamas, é errado tocar violino; mas é correto estudar teoria hidráulica. Portanto, urge abandonar o agnosticismo diário e tentar “conhecer as causas das coisas”. Se se avião tiver uma leve avaria, um homem hábil poderá consertá-lo. Contudo, se padecer de um mal grave, o mais provável é que se tenha de tirar de uma universidade ou laboratório algum velho e distraido professor de cabeleira desgrenhada e branca para analisar o mal. Quanto mais complicada a avaria, tanto mais grisalho e distraído haverá de ser o teórico.”

A filosofia cristã soube concentrar seu esforço intelectual para identificar e remediar as causas da decadência cultural ao longo do tempo. Santo Agostinho e São Bento (renovação na antiguidade); São Bernardo e São Tomás na idade média; Santo Inácio, Santa Teresa e Newman na modernidade e São Josemaria e São João Paulo 2 na contemporaneidade.

Sertillanges, em vez de se render ao pessimismo de seu tempo, convoca os católicos ao trabalho paciente de reflexão sobre a crise civilizacional.

O impeto moderno por transformar o mundo exterior

“Hoje, de fato, raramente se encontra um jovem que não queira, antes de tudo, “transformar o mundo” e que em função desse parti pris, não adie para as calendas gregas o dever de perguntar o que é o mundo” – Olavo de Carvalho

Em um dos capítulos do livro “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, Olavo de Carvalho comenta sobre os jovens que se engajam na missão de transformar o mundo (sem antes compreende-lo). Ele diz que “saber primeiro para depois julgar é o dever numero um do homem responsável” e que infelizmente, no Brasil, as pessoas só se preocupam com a aquisição de cultura e inteligência depois da aposentadoria (e olhe lá!).

Porém, nesse estagio da vida, tal conhecimento apenas lhe revelaria o que tal pessoa deveria ter feito e não o fez. Então, continuam se esquivando do conhecimento e este deixa de ser uma força transformadora e transfiguradora. Eis onde termina a vida daquele que, na juventude, em vez de esperar compreender, cedeu a tentação lisonjeira do primeiro convite e se tornou um “participante”, um “transformador do mundo”.

Portanto, a pior coisa que você pode fazer enquanto jovem é ser um desses militantes políticos que não compreendem nem o mundo em que vivem, senão a unica coisa que você estará fazendo é tentar transformar o mundo a imagem de sua própria idiotice.

“Antes de querer mudar o mundo, arrume seu quarto” – Nesta frase de Jordan Peterson, ele antepõe a ética a ação política, criticando o ativismo histérico e hipócrita.

O professor Olavo de Carvalho também comenta algo parecido, quando diz que “A expansão dos ideais sociais e da revolta contra a sociedade injusta vem junto com o rebaixamento do padrão moral das pessoas, afinal tem coisa mais fácil e mais confortavel do que sempre aliviar suas culpas e “encobrir” suas maldades jogando-as nas costas da sociedade?”

O professor Olavo de Carvelho também comenta em um dos capítulos de seu livro “O Imbecil Coletivo” sobre o que as pessoas consideram ser uma pessoa “moralmente boa” nos dias atuais:

“Eis um resumo da moral dos nossos tempos – condena a indiferença conformista e exorta as pessoas a um comportamento ético de combater as injustiças. Combater as injustiças para ser a mais elevada conduta ética nos dias de hoje. O estado normal do homem ético, segundo essa perspectiva é a indignação e sua arma a denúncia. Uma etica que enfatize acima de tudo o combate e a denuncia é uma etica que induz cada individuo antes a fiscalizar os outros do que a dominar-se a si mesmo. É uma antiética, que adotada em escala nacional, terá como resultado transformar o povo brasileiro numa horda de irresponsáveis indignados. Indignados com os outros e perfeitamente satisfeitos consigo mesmos, na traquilidade da falsa consciencia que, ao denunciar, acredita ter cumprido o seu máximo dever. Uma ética de espiões, fofoqueiros, maliciosos até a medula e totalmente destituidos de autoconciencia crítica.” Olavo de Carvalho

Cuidado com Mudanças Irrefletidas

Além disso, o filosofo G.K Chesterton afirma que “Antes de mudar algo, precisamos entender por que foi colocado lá em primeiro lugar.” Basicamente isso significa o seguinte: Não destrua o que você não entende!

Tal frase explica a importância da justificação antes da reforma. Imagine uma estrada onde uma cerca foi construída no meio. Um reformador, vendo a cerca sem um propósito aparente, decide que ela deve ser derrubada para melhorar o fluxo ou a estética.

Chesterton argumenta que o reformador está agindo irracionalmente se não souber por que a cerca foi erguida originalmente. Ele pode derrubar a cerca sem perceber que ela estava lá por uma razão importante — talvez para impedir que crianças caíssem em um barranco, para deter o gado, ou para proteger uma plantação

A lição fundamental é que, na ausência de conhecimento sobre a origem ou a função de uma regra, tradição, sistema ou objeto, a atitude mais prudente é a conservação . A mudança só deve ocorrer após uma compreensão completa do status quo.

A frase é um lembrete poderoso contra a “reforma cega” ou a tentação de derrubar sistemas simplesmente porque sua lógica não é imediatamente óbvia

Virtuosismo Moral

Nos dias atuais, existe uma tendência ao chamado “Virtuosismo moral”, em que parecer virtuoso é mais importante do que ser virtuoso ou eficaz (Parecer ser é mais importante do que Ser).

No livro “Virtuosismo moral”, Justin Tosi e Brandon Warmke discutem o exibicionismo moral:

“Querem que os outros pensem que eles são moralmente especiais. As vezes, esses exibicionistas morais querem que os outros pensem que eles são santos ou heróis da moralidade. Há, porém, exibicionista morais com ambições mais modestas. Eles podem simplesmente querer que os outros acreditem que ele são pessoas moralmente decentes. Em um mundo onde pouquissimos alcançam o piso da respeitabilidade moral, esses exibicionistas pelo menos garantem seu lugar ali.”

O ativismo, imediatismo e pragmatismo, em poucas palavras, a concentração na práxis transformadora, como em Marx, suplantam a vida contemplativa, demitindo a verdade moral, metafísica e religiosa, como ilusões de uma época ingênua e ignorante. (Victor Sales)

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo” – Marx

O conhecimento objetivo do mundo comporta uma transformação subjetiva do filósofo, que acolhe, amorosamente, a verdade em seu espírito, sem querer dominá-la ou transformá-la. Essa é a diferença entre um intelectual filosofo cristão e a versão moderna politizada intelectual-sofista, como Rousseau, Marx e Sartre. O intelectual moderno, para Voegelin, é gnostico, pois enfatiza o aspecto técnico e produtivo da ciência, de dominação da natureza e do próprio homem, em nome de um ideal utópico de progresso, normalmente negligenciando a edificação moral do homem pelo autoconhecimento e autodomínio, na busca de instaurar a ordem na sua alma, a partir da ordem divina do cosmos.” – O Mínimo Sobre Filosofia (Victor Sales)

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