“Chamamos de frustração existencial – de não realização da vontade de sentido, o sentimento de vazio existencial, o sentimento de uma existência sem objetivo e conteúdo”. Viktor Frankl
Os textos desse post foram retirados do livros “Torna-te o que és” e “O homem e a busca de sentido: Um guia para entender Viktor Frankl” do autor Luis Enrique Paulino Carmelo. Recomendo muito a leitura e aquisição dessas obras para melhor compreensão do pensamento de Viktor Frankl.
Viktor Frankl nos mostrou que existem sofrimentos que não nascem de traumas e conflitos. Eles se manifestam como um cansaço da alma, um sensação de vazio, um tipo de dor que não é psicologica, mas existencial.
Frankl identificou um fenômeno típico da modernidade: o vazio existencial (frustração existencial). Trata-se de uma sensação de tédio profundo, apatia, falta de direção e perda de significado.
No livro “Torna-te o que és“, do Luis Enrique Paulino Carmelo, o autor comenta sobre uma das causas do vazio existencial que ocorre na atualidade, o desaparecimento das grandes tradições:
“Frankl é cirurgico ao dizer que o homem, na modernidade, não conta mais com uma forte presença das tradições como outrora, bem como não conta com instintos tal como os animais. O instinto, no animal, diz a ele exatamente o que deve ser feito, o animal está ligado ao mundo, ele não pode fazer outra coisa senão aquilo que o seu instinto lhe aponta. Além do mais, diferentemente de outros momentos, o homem atual também não conta com uma presença forte das grandes tradições que lhe diziam o que deveria fazer. Neste momento, dois “atalhos” podem surgir no horizonte de visão do indivíduo: ou se configura a massa, fazendo o que todos fazem, ou elege um guru ou tirano que vai lhe impor algo a ser feito. Temos, assim, respectivamente, o fenômeno da massificação e do totalitarismo, advindos destas atitudes coletivista e fanatica do homem hodierno. Não sabendo o que deve ou deveria, o homem já não sabe tampouco o que quer, e passa a julgar por bem a fazer o que todos fazem, ou seguir um tirnano que lhe impõe o que fazer”
Hoje acontece que o homem não se mostra capaz de dotar sua vida de um sentido. Ele está existencialmente frustrado.
O tédio e a indiferença seriam às duas formas de manifestação do vazio existencial: “Nesse contexto, enquanto o tédio significa uma perda de interesse, interesse pelo mundo, a indiferença designa uma falta de iniciativa, a falta de iniciativa de transformar algo no mundo e de melhorar algo.”
Schopenhauer ensinou que o homem oscila entre dois extremos, a necessidade e o tédio, e hoje o pêndulo está na segunda extremidade. Na sociedade afluente, há muito dinheiro, mas não há um objetivo de vida. As pessoas têm de que viver, não para que viver.
“Na realidade das sociedades de abundância, às pessoas tendem a sofrer mais pela ausência de demadas do que pelo excesso delas. Essa sociedade de fartura exige de menos, de modo que às pessoas sejam cada vez mais poupadas de tensão”. Os indivíduos, assim, veem-se cada vez mais poupados de um mínimo saudável de tensão, de desafios pessoais na construção de sua vida.
Todos nós precisamos dessa tensão entre nosso ser (quem eu sou hoje) e nosso dever-ser (quem devo me tornar), na certeza de que aquilo que sou hoje precisa passar por atualizações a fim de que eu me torne aquilo que devo.
Segundo Frankl, o ser humano precisa de luta e esforço por um objetivo valioso e não de um estado livre de tensões.
Frankl considerava um “equívoco perigoso” acreditar que o ser humano precisa, acima de tudo, de equilíbrio ou de um estado livre de tensões (homeostase). Ele argumentava que buscar apenas conforto e redução de tensão leva ao vazio existencial.
É tipico dos neuróticos deixarem de se orientar no rumo das coisas, na busca dos motivos, razões do sentido e passarem a se concentrar em seus próprios estados mentais, desejando sempre mais prazer e evitando todo o desprazer, para assim manterem este estado de equilíbrio interno e mental. O homem saudável irá optar por se dirigir e se orientar em relação aos ibjetos do mundo, aos outros.
Frankl argumenta que tanto a falta de tensão quanto aquela em excesso são, do ponto de vista logoterapêutico, igualmente perigosas a saúde. A sociedade de fartura vai, aos poucos, convertendo-se em uma “sociedade do ócio”. Há mais tempo livre, porém menos percepção de sentido de vida.
A falta dessa tensão pode levar ao vácuo existencial, caracterizado por sentimentos de falta de significado. Uma das causas para o surgimento de neuroses noogênicas é não ser desafiado por uma tarefa que exige o seu empenho.
“Não se trata de homeostase a todo custo, mas sim de noodinâmica” – A vida não pode ser sobre evitar tensões, mas sim sobre agir, intensa e assertivamente.
A noodinâmica, conceito central da Logoterapia de Viktor Frankl, refere-se à tensão dinâmica e saudável entre o que uma pessoa é e o que ela deve se tornar, ou entre o ser humano e o sentido a cumprir. Ao contrário da homeostase (busca por ausência de tensão), a noodinâmica considera a tensão existencial necessária para a saúde mental e a busca de sentido.
Não somos chamados a viver uma vida tíbia, cheia de covardias e de regalos, mas uma vida com um caráter de litígio, de luta e disputa. Essa disputa não é uma luta que se trava contra os outros, senão uma luta que devo travar, diariamente, comigo mesmo.
A vida é, de algum modo, um arriscar-se, um saber se lançar, empreender, exigir cada vez mais de si mesmo para chegar a lugares até então desconhecidos, inexplorados. Mas viver enquanto apegar-se a sua vida, tentando simplesmente conservá-la a todo custo, sem pequenos sacrifícios e contrariedades, sem se gastar por nada nem ninguém, isso não é preciso. Isso é enfadonho, pura mesquinharia.
Percebo que não sou ainda aquilo que devo, mas com empenho, luta e constância posso chegar lá. Contudo, se abro mão, se entrego os pontos, se deixo de lutar por medo de sofrer ou me desgastar, ou ainda se busco atalhos e fabrico situações de prazer, vou “perdendo a mão”, me perdendo pelo caminho, frustrando minha dinâmica própria e caminhando do ser ao que eu não deveria ser, aquilo que não é meu chamado, aquilo que não me é próprio. Torno-me um esquecido do meu dever-ser, uma espécie de desertor de minha própria biografia.
Há uma espécie de abulia na geração atual, uma frouxidão patológica que é alimentada por essa visão distorcida de que viver é usufruir, aproveitar ao máximo, sem, contudo estar disposto a pagar o preço por nada. Todos vão sendo educados a conquistar sem pagar. Uma geração que parece estar anestesiada, que ainda não compreendeu que viver é se gastar, que “se poupar é se perder”. Que o preço da frouxidão é ser rebaixado ao posto de alguém interditado, que já não decide, mas deixa que decidam por ele, que não constroi, não amadurece, mas permanece qual fruta verde, amarga e imprestável. Não gera valor, nem riqueza, não espalha perfume, não é capaz de lutar por aquilo e por aqueles que ama
Em tempos como este que vivemos, não devemos temer exigir demais dos homens, mas sim exigir de menos diz Frankl. Nossa geração é uma geração fraca, com uma mentalidade de Happy Hour, que acredita que a hora feliz é sempre contrária a do cumprimento dos deveres e da vida ordinária, que busca o prazer de modo cada vez mais acelerado e intenso, mesmo que para tanto deva anestesiar a consciência e fugir para um lugar de ilusões. Estamos numa era gourmet, em que tudo tem que causar um estorvo de sensações e estar devidamente harmonizado. É a era do fast food, da fuga das responsabilidades, do sexo sem compromisso (e sem amor!), das famílias sem filhos, do Merthiolate que não arde.
“Selye, o pai do conceito do estresse admitiu recentemente que o “estresse” é o sal da vida. Eu dou um passo adiante e declaro que o homem tem necessidade de uma tensão específica, ou seja, daquele tipo de tensão que se estabelece entre o ser humano, de um lado, e, do outro, o sentido que ele deve realizar. Na realidade, se o sujeito não é desafiado por uma tarefa que exige o seu empenho, surge um certo tipo de neurose, a neurose noogênica” Viktor Frankl




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