“Uma das características mais sinistras da época atual é, sem dúvida, o destronamento da verdade.” – Dietrich von Hildebrand
“De acordo com um estudo do Higher Education Research Institute, o percentual de americanos que pensa que ficar rico é algo muito importante subiu de 42% para 75% em 2005, enquanto o percentual de americanos que acredita que “constituir uma filosofia de vida plena de sentido” seja algo muito importante caiu de 85% para 46%.” (Catholic World Report 2007)
O homem ignorante é aquele que não possui curiosidade e não interroga sobre a natureza das coisas. Ele simplesmente assume que esse mundo “veio pronto”, que as coisas são como elas são e que não é necessario interrogá-las. São homens imunes da paixão da verdade, supremos ideal a que pensadores e filosofos sacrificaram as suas vidas. Aquele que não cultiva a sua mente, vai direto no sentido da desagregação da sua personalidade.
O que é a verdade?
“Ninguém gosta de que lhe mintam – dizia Platão, e isso é mais uma prova de que existem a verdade e a falsidade”
“Dizer que o ser não é ou que o não-ser é, é falso; mas dizer que o ser é e que o não-ser não é, é verdadeiro.”
Aristóteles
Vivemos cada vez mais em um mundo em que a razão é substituida pela emoção, num mundo pós-verdade, de rejeição da lógica, da razão e da materialidade objetiva do mundo.
Quando abandonamos a busca pela verdade objetiva, o que resta é o principio do mais forte, aquele que conseguir ser mais bruto e violento conseguira impor o seu discurso como a “verdade”. Quando renunciamos a realidade objetiva, a verdade torna-se aquela opinião de um individuo ou grupo que é imposta a força.
Essa é a ligação existente que existe entre o relativismo impulsionado pela esquerda pós moderna e o principio fascista de violencia. Sem uma referência a uma realidade externa na qual devemos nos conformar, fica impossível dizer quando uma pessoa está errada ao expressar uma opinião que não coincide com os fatos objetivos.
A definição de verdade em Tomás de Aquino parece ser bem simples à primeira vista. Define-a o Aquinate da seguinte maneira: Veritas est adaequatio intellectus et rei, “a verdade é a adequação entre o intelecto e as coisas” A verdade é assim concebida como uma correspondência entre a realidade objetiva e a mente.
Seguindo a linha de Aristóteles, Santo Tomás de Aquino define inteligência como: “adequação do intelecto à realidade”.
A verdade de uma afirmação é determinada por sua correspondência com fatos objetivos, que se referem a realidades externas e independentes de nós.
“O discurso verdadeiro não pode de modo algum causar a realidade do seu próprio conteúdo, mas o conteúdo se apresenta de certa forma como a causa da verdadeira realidade do discurso.“
Ou seja, o homem não constrói a verdade, não há produção da verdade, mas, para que um juízo seja verdadeiro é necessário medi-lo pela concretude da própria realidade.
Em outras palavras, a verdade, de acordo com essa teoria, existe quando o que pensamos corresponde ao que realmente é. É a ideia de que o intelecto humano é capaz de apreender a realidade de forma precisa, e que a verdade é alcançada quando essa apreensão é correta,
Eis a noção clássica de verdade como correspondência. É a noção de que deve haver alguma identificação entre a realidade em si e o que é produzido na minha mente.
O Afastamento da Verdade Objetiva (Mentalidade do pós modernismo)
Nietzsche expressou esse impasse da posição realista ao afirmar que a percepção sensorial à qual acessamos a cada momento “não conduz de modo algum à verdade, mas satisfaz-se com a recepção de estímulos” que recebemos e que se produzem no nosso ser, na nossa vida.
Descartes, buscando superar o realismo, propôs uma nova definição de verdade: seria uma certeza subjetiva que se estabeleceria em nós por meio da evidência da clareza e da distinção de certas ideias.
Foi ele, no entanto, como o pai da modernidade, que nos conduziu a uma abordagem cada vez mais centrada no sujeito (subjetivismo) Assim, à medida que nos concentrávamos nas ideias que emergem em nossas mentes, acabávamos nos afastando da perspectiva realista. A maioria dos filósofos começou a conceber o acesso à verdade como simplesmente uma operação subjetiva.
Por fim, o realismo deu lugar ao perspectivismo: não se trata apenas de afirmar a impossibilidade de acesso a uma Verdade objetiva e universal, mas de refutar, a existência de tal Verdade escrita com letra maiúscula. Fatos objetivos perdem, assim, relevância, enquanto interpretações subjetivas e circunstanciais são exaltadas. Em última análise, não há mais fatos objetivos: tudo se reduz a interpretações possíveis. A verdade é vista como uma construção puramente humana.
De fato, como posso ter certeza de que o pensamento produzido em minha mente corresponde à realidade objetiva do meu entorno? Para Nietzsche, há uma falsa presunção de verdade na perspectiva realista: os filósofos clássicos, diz ele, realizaram um ato hipócrita de puro orgulho ao afirmar conhecer as essências das coisas em si mesmas, como se a representação no intelecto acessasse a realidade da coisa.
A desconstrução do realismo acompanha a proclamação de que cada um de nós é um produtor criativo de novas verdades. É por isso que só me torno verdadeiramente livre após eliminar a Verdade objetiva e universal. Portanto, a derrota dessa Verdade absoluta, à qual devo me adaptar, corresponde à minha vitória como um poderoso “gênio construtivo” – eu crio conceitos por mim mesmo. Nietzsche, portanto, não apenas desconstruiu a perspectiva realista; ele nos convidou a criar nossa própria essência absolutamente única a partir da pessoa que somos ou, em outras palavras, a partir de nossa própria vontade.
Essa luta contra o realismo classico vem de um impulso que me leva a ter resistencia ao movimento de me adaptar a uma realidade externa de mim, como algo totalitário, já que me impõe uma Verdade e faz com que eu tenha que me adaptar a ela. A referência a uma verdade objetiva é encontrada em uma realidade externa a meu ser e independente de meus desejos.
Na perspectiva moderna, a libertação ocorre quando eu me torno o ponto central de construção de minha própria verdade.
Assim, em tais círculos acadêmicos, tornou-se muito difícil ser realista, porque o status quo atual considera ilegítimo e próprio de uma atitude totalitária afirmar conhecer uma realidade objetiva independente de nós. Além disso, até mesmo a própria existência dessa realidade externa tornou-se, em tais contextos, uma ilusão.
O perspectismo enxerga a verdade como uma convenção imposta a nós por meio da força (de uma poder estabelecido), a verdade é uma imposição dos que detém o poder, não há mais a busca por uma verdade objetiva, o que importa é a controle do status quo (que privilegia um grupo ou instituição) – os “vencedores” que decidirão o que é “certo” e o que é “errado”. A verdade deve ser estabelecida por meio da força (tudo é visto como construção social)
Do perspectivismo radical surge um conflito entre diferentes pontos de vista que competem pela supremacia sobre qual “verdade” prevalecerá na sociedade.
Portanto, a verdade não só se reduz a uma construção humana, a uma mera convenção social, mas cada indivíduo possui a sua própria verdade, absolutamente única.
“Quando a própria cultura é corrupta e a verdade objetiva e os princípios universalmente válidos não são mais mantidos, então as leis só podem ser vistas como imposições arbitrárias ou obstáculos a serem evitados” – Papa Francisco
Vivemos na Era em que a Verdade Existe (Pós-Verdade)
“Vivemos na era da pós-verdade. O termo, um neologismo, descreve uma realidade em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que os apelos emocionais e as crenças pessoais.”
A Pós verdade é a supremacia da emoção sobre a razão, mas mais do que isso, é a dissolução do próprio conceito da Verdade – a verdade passa a ser a narrativa predominante, a que desperta mais sentimentos, aquela que é mais repetida por todos – ela não precisa mais corresponder aos fatos, ao que é real.
O que é valorizado agora é a boa retorica, a oratoria, o que mais despertar sensações agradaveis… a verdade não importa, a busca da verdade torna-se desnecessária… “eu acredito, portanto aquilo existe”
Ou seja, para a pós-verdade o que vale é a emoção e não os fatos, as opiniões particulares e não a verdade.
“É grave uma situação em que se deixa de levar em conta a distinção entre o certo e o errado, o bom e o mau, o justo e injusto, os fatos e as versões, a verdade e a mentira. Entra-se, então, numa era em que predominam as avaliações fluidas, as terminologias vagas ou os juízos baseados mais em sensações do que em evidências. Passa a ser verdade aquilo de que gostamos, que escolhemos e difundimos, torcendo para que tenha a maior repercussão possível.” Dom Murilo Krieger
Vivemos em um tempo em que os FATOS importam menos do que as NARRATIVAS – conceito de pós-verdade, em que o fatos têm menos importancia na construção da realidade do que as crenças e opiniões individuais, o que importa é a narrativa que ressoa com as emoções da pessoa.
Não podemos deixar de dizer que os humanos são buscadores tendenciosos de informações. Preferimos receber informações que confirmem nossas visões existentes.
Por que devemos permanecer realistas?
“A verdade, hoje em dia, é frequentemente reduzida à autenticidade subjetiva do indivíduo, válida apenas para a vida do indivíduo. Uma verdade comum nos intimida, pois a identificamos com as exigências intransigentes dos sistemas totalitários. […] Quem crê pode não ser presunçoso; pelo contrário, a verdade conduz à humildade, pois os crentes sabem que, mais do que possuirmos a verdade, é a verdade que nos abraça e nos possui. Longe de nos tornar inflexíveis, a segurança da fé nos põe em caminho; ela permite o testemunho e o diálogo com todos.” – Papa Francisco
Nós podemos saber algo sobre a realidade objetiva que existe independentemente de nós. A presença de uma realidade externa na qual eu preciso me adaptar. É importante assumir a presença de uma Verdade que transcende todas as tradições, todas as ideologias, todos os pontos de vista.
Assim, em vez de assumir a impossibilidade de alcançar a verdade, como Pilatos ironicamente perguntando: “O que é a verdade?” (João 18:38), podemos empreender o esforço de abordá-la juntos.
- Somos chamados a ser humildes perante a realidade que não construimos por meio de nossa atividade mental. A arrogância reside mais no sujeito que cria suas próprias verdades subjetivas do que na pessoa que se esforça para acomodar uma realidade objetiva independente de suas próprias construções.
Considere os “verificadores de fatos” presentes nas mídias sociais. Vemos que a verificação da verdade de uma publicação depende do conhecimento correto de um fato objetivo (dai podemos ver que um determinado discurso não se adequa a realidade, que é, portanto, falso). A verificação de fatos utilizada para contrariar os perigos da pós-verdade pressupõe, portanto, necessariamente o realismo, segundo o qual devemos referir-nos a uma realidade objetiva e independente da nossa vontade e das nossas construções ideológicas.
A origem de nossas ideias
O conformista moderno, é o “homem dirigido pelo outro”, tirando seus valores, padrões, significados e propósito de modas e modismos, do Zeitgeist, o espírito do tempo. – Peter Kreeft
Você já parou para refletir sobre a origem de suas ideias? Se realmente fizeremos esse autoexame, verificariamos que a maior parte de nossas ideias, nossa cosmovisão e comportamento não foram escolhidas por nós mesmos, simplesmente absorvemos, sem nenhuma discriminação, as modas intelectuais e chavões transmitidos pela opinião popular, pelo espírito de nossa época.
Absorvemos, acriticamente e passivamente, todas as ideias que nos chegam, adotando-as como verdadeiras. É necessário rastrearmos as influencias que moldaram nosso pensamento ao longo do tempo.
Esse tipo de exercício foi um dos grandes aprendizados deixados pelo professor Olavo de Carvalho, que propunha aos seus alunos a construção de uma autobiografica intelectual, uma espécie de autobiografia sobre as ideias que mais nos impactaram sem diferentes momentos de nossa vida, as ideias que aderimos para construir nossa cosmovisão.
Anamnese (autobiografia intelectual) – consiste numa técnica de rastreamento da origem das suas crenças ou ideias na realidade. Sem esse rastreamento, o sujeito cairá num efeito manada, a reprodução de ideias externas, veiculadas nos jornais, filmes, universidades, redes sociais, etc, enquanto o indivíduo julga a si mesmo como alguém dotado de “opinião própria”.
“Para iniciar este rastreamento, é essencial adotar uma postura de sinceridade radical consigo mesmo, questionando não apenas as ideias que temos, mas como e por que elas chegaram até nós. Esse exercício envolve revisitar momentos e contextos específicos da nossa vida onde conceitos-chave foram introduzidos e como nossa interação com esses conceitos evoluiu ao longo do tempo. Ao revisar nossas opiniões e crenças, frequentemente descobrimos que muitas delas foram adotadas por imitação ou por parecerem alinhadas com nossos sentimentos naquele momento, sem uma análise profunda de seu significado ou veracidade.”- (do site: Olavete)
“Podemos nos perguntar: “Quando eu comecei a pensar dessa maneira? Quais eventos ou pessoas influenciaram essa crença?” Essas perguntas podem nos levar a reconhecer padrões e fontes recorrentes de nossas influências. Evitar as armadilhas da adoção passiva de ideias e buscar constantemente a origem e a validade de nossas crenças nos permite construir uma personalidade intelectual mais autêntica e resiliente.” – (do site: Olavete)
“Só um imbecil completo busca ter uma opinião própria, Quem tem cabeça busca ter uma opinião verdadeira” – Olavo de Carvalho
É necessário pensar sobre as grandes questões da vida. É falsa a noção de que o caminho da felicidade é o não-pensamento, a superação da mente inquieta. Os nossos problemas são tão complexos e suas causas tão profundas que, para os compreendermos,necessitamos mais do que nunca refletir e procurar soluções reais.
Isso é o que mais falta na humanidade… aprender a pensar sobre grandes questões. Isso não envolve você simplesmente repetir slogans e doutrinações que recebeu da sua escola e faculdade, mas sim fazer a si mesmo perguntas dificeis como: Já que é vida é um processo/questão em aberto, um projeto em constante desenvolvimento, como levar a bom termo esse projeto? Como se aprende a arte de viver? Qual é o caminho que leva a felicidade?
Para os que creem, Deus é o único que pode satisfazer essas questões, visto a tendência observada em toda a humanidade de sempre buscar o eterno e Deus, um buraco infinito que o homem carrega dentro de si que só o próprio Infinito, Deus, pode preencher.
Alguns acreditam que a vida sem fé é mais fácil, porém a vida sem Deus é um absurdo total. O homem não consegue viver sem pontos de referência e todos aqueles sistemas de pensamento que se baseiam na negação da existencia de Deus, eventualmente acabam colocando um novo “deus” (ídolo) na tentativa de ocupar esse buraco.
A dúvida deve levar-nos a aprofundar. “Se você se vê assaltado pelo pensamento de que tudo quanto imaginou sobre Deus é falso e de que Deus não existe, não se sobressalte por isso. Mas não pensa que a sua incredulidade procede de que Deus não existe. Talvez haja na sua fé algo de errado e você tenha que se esforçar por compreender melhor isso que chama Deus. Quando um selvagem deixa de crer no seu Deus de madeira, isso não significa que Deus não existe, mas que o verdadeiro Deus não é de madeira” – Tolstói
Lutar por encontrar a verdade é um instinto conatural a todo o ser humano. A grandeza do homem reside em que se pode decidir-se pela verdade e pelo bem, e assim construir a sua vida a luz da sabedoria e da liberdade.
Sabemos que o conhecimento da realidade é importante, pois favorece a liberdade. A conquista da liberdade é uma caminho de conhecimento e de exigência pessoal.
“Para sermos livres, temos de previnir-nos contra a influência da massificação e das correntes de pensamentos da moda. Não se deve esquecer que grande parte do nosso acesso a realidade se dá através dos meios de comunicação, que possuem uma grande capacidade de persuasão, e, se uma pessoa se descuida, pode julgar-se muito livre por seguir a sua imperiosa espontaneidade, sem perceber que está sendo dirigida por uma engenhosa propaganda” – Alfonso Aguiló
A verdade não é a opinião da maioria
Só por que alguma coisa é praticada por todos, não significa que ela é correta. A opinião da maioria não é o definidor da verdade, até porque, na maioria das vezes, essa maioria se encontra errada.
Se você for parar para pensar, até mesmo confiar na autoridade do consenso cientifico é você se sujeitar a opinião da maioria. Mas o que vale não é o numero de pessoas que aderem a um postulado e sim se aquele mesmo principio é verdadeiro ou não.
Muitas das vezes a opinião da maioria estava totalmente errada. Em um tempo atrás, questões como o tráfico de escravos, a tortura e a segragação racial eram consideradas “certas” pela maioria das pessoas… foi preciso que homens corajosos, que tivessem a disposição de ir contra a corrente, pussessem um fim a essas arbitrariedades impostas pela opinião da maioria.
“O errado é errado mesmo que todo mundo esteja fazendo. O certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo.” GK Chesterton
Que tipo de pessoa eu quero ser?
Quando alguém se interroga sobre o tipo de pessoa que quer ser, e sobre o modo de conseguí-lo, tem pela frente questões importantes. O acerto da sua vida dependerá muito de que não fuja dessas perguntas. Não basta pensar um pouco nelas, porque, como escreveu Thomas More, muitas pessoas fracassam na vida, não por terem negado a pensar nessas questões, mas por terem pensado pouco nelas.
As vezes, é o que pode parecer, e, com efeito, a pressão do ambiente tem muita força. Já dizia o Chesterton: “É tão simples, tão fácil e agradável entreguarmo-nos as mãos do conformismo… e tão duro atrevermo-nos a ser o que somos, e a crer no que cremos, por fidelidade a nossa própria alma”.




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