“Os antigos ensinavam que as coisas são belas a medida que são boas e que são boas a medida que perseguem sua finalidade, e a finalidade é o bem de cada coisa” – Cristián Rodrigo Iturralde
O textos abaixo foram retirados do livro “Um mapa para a vida” de Frank Sheed, em que ele comenta sobre como não podemos viver de uma forma inteligente se não sabemos qual é a finalidade da vida do ser humano, ou seja, “para que” existimos. Se não tivermos esse conhecimento de nossa finalidade, todas as nossas ações serão cegas e aleatórias, não estaremos em direção ao nosso bem, que é inseparavel de nossa finalidade.
Nunca sabemos de verdade o que uma coisa é enquanto não sabemos para que serve. O conhecimento total da coisa exige o conhecimento de sua finalidade.
Se agirmos sem conhecermos a finalidade do objeto, nossa ação é ineficaz. Apesar das boas intenções, agimos, sem o conhecimento da finalidade, de forma cega, e não há qualquer virtude na cegueira. Boas intenções jamais substituem o conhecimento da finalidade.
Se não se sabe o que são os seres humanos, isto é, para que existem, como saber o que é bom para eles?
Para nós seres humanos, isso significa que enquanto não soubermos para que servimos, não poderemos ajudar a nós próprios ou ao próximo.
Quando alguém vem nos oferecer um sistem de vida, devemos lhe fazer duas perguntas: Na sua opinião, qual é a finalidade da vida do ser humano? Como você sabe?
A Igreja Católica tem uma resposta para cada uma dessas duas perguntas.
A melhor maneira de conhecermos a finalidade de uma coisa é perguntarmos a seu Criador.
Uma coisa pode chegar a “ser” somente de suas maneiras. De forma intencional ou de forma acidental. Isto é, ou alguém quis que ela fosse, ou ela veio a ser por simples acaso. Algo intencional possui uma finalidade; algo acidental não. A pergunta é: a humanidade é, como aparentemente toda a criação material, um acidente e, portanto, algo desprovido de sentido ou foi criada intencionalmente?
Os católicos sabem que o ser humano foi criado por Alguém inteligente, que conhecia a finalidade da sua ação. Além de ter-nos criado com um fim, Deus nos revelou esse fim. A vida inteligente é impossível sem esse conhecimento.
Acontece que, além daquilo que o próprio Deus nos contou acerca dos seus planos, não dispomos de nenhum meio para conhecer o nosso fim. Não podemos encontrá-lo por nós mesmos. Um cientista só pode explicar do que somos feitos, do que nossos corpos são feitos, mas não pode dizer para que fomos criados.
Em outras palavras, ninguém pode dizer-nos a nossa finalidade, só Deus. Se Ele não nos disser qual é, somos incapazes de descobrí-la.
Assim como só pela Revelação divina podemos saber com certeza qual é a finalidade da nossa existência, quem não crê nela não tem outro remédio senão decidir, por conta própria, que orientação dar a sua vida. Quem nela não crê, decide por conta própria que orientação dar a sua vida. Porém, cada ser humano dospõe de inúmeras opções e há grandes chences de ele escolher um rumo errado e estragar toda a sua vida.
Não é possível de modo algum viver inteligentemente, isto é, conscientes do verdadeiro fim da nossa vida, se Deus não nos revela esse fim. O ato supremo da inteligência é entender a Revelação de Deus.
- Agimos bem quando empregamos as faculdades de acordo com o nosso fim e agimos mal quando a empregamos de maneira contrária.
A dor não é necessariamente má. O mau é tudo aquilo que dificulta a uma pessoa atingir o fim para o qual foi criada. Isto é, para o ser humano só é realmente mau o que se opõe a salvação da sua alma. O sofrimento não é um obstáculo para isso, só o pecado é sempre mau.
O homem precisa conhecer a finalidade de sua existencia e as leis pelas quais deve orientar-se, além da verdade.
A Lei Natural
O ser humano percebe logo no começo da vida que o mundo é regido por leis. Se refletir sobre essas leis, verá que não as escolheu, em muitos casos são até o oposto do que teria preferido e que sua desaprovação não tem qualquer efeito sobre elas.
Uma pessoa pode agir como se tais leis não existissem, podendo se prejudicar e até morrer por conta disso. Se a pessoa for sensata, ela as aceita, mesmo que a contragosto e faz o possível para viver de acordo com elas. Em todo caso, a pessoa não pode ver-se livre delas, mas apenas ser livre a partir delas. E só quem conhece as leis obtém essa liberdade. A condição para alcançar essa liberdade é saber qual é a lei.
Da mesma maneira que há leis que governam o corpo, há leis, em particular a lei moral, que governam a alma. Como as leis materiais, a lei moral é comprovada pela experiência, mas não é criada pelo ser humano nem depende de sua aprovação. Ele pode ignorá-la, mas o resultado é identico, a sua destruição.
Os preceitos da Igreja não são proibições arbitrárias, mas é uma salvaguarda da liberdade humana, defende a responsabilidade da liberdade. O “Bem” não é aquilo que simplesmente me agrada ou satisfaz os meus interesses.
É insansato as pessoas que falam da emancipação da lei moral. Nem o Estado, nem a Igreja, qualquer individuo pode alterar a lei moral.
Os seres humanos podem chocar com a lei de Deus, mas quem sofre as consequências são eles mesmos, a lei de Deus permanece intacta.
A conclusão é, pois, que este é um mundo de leis a que precisamos obedecer para viver com êxito. A obediência, por sua vez, pressupõe o conhecimento.
Desde que o ser humano existe, tem diante dos olhos o seu corpo e o mundo material e tratou de descobrir as leis que regem a matéria. Mesmo assim, neste terreno tão evidente, os seres humanos mudam continuamente de opinião.
Em relação as leis éticas que regem a ação humana, elas são bem menos claras que os corpos físicos, teriamos grandes dificuldades para descobrí-las com a nossa própria força.
Como o apenas o próprio Legislador pode conhecer com certeza o conteúdo das leis que criou, nos vemos numa situação que dá muito o que pensar: Deus, Autor de todas as leis, deixou o ser humano descobrir as leis da matéria por conta própria, contudo quis revelar-lhe as leis que governam o espírito.
Nossa vontade é capaz de escolher uma linha de ação contrária a que é correta.
A liberdade costuma ser definida como a possibilidade de fazer o que queremos. Mas, se aceitarmos essa definição, logo perceberemos que essa talvez seja a meta da liberdade, mas certamente não é o caminho para atingí-la. A liberdade não se atinge, portanto, fazendo o que queremos, mas sim o que devemos, a não ser que os dois coincidam. E isso nos remete, por sua vez, a verdadeira finalidade do nosso ser e as leis que precisamos seguir para atingí-la. Fora disso, só há vazio.
Uma das características da modernidade é a tentativa de abolir essa estrutura da lei moral natural. Atualmente o Tao (lei moral natural) foi abolido.
Lei e o Pecado
Com a Lei divina, o Criador indica-nos o caminho pelo qual devemos orientar a nossa vida. Trata-se de uma expressão da sabedoria divina e seria absurdo que a inteligência humana tentasse mudá-la. Essa Lei que tentam mudar foi estabelecida por aquele que é o Amor Infinito.
Jesus Cristo resumiu os deveres do ser humano nestes dois mandamentos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo”. Não teremos vida sobrenatural se não amamos a Deus e a nosso próximo. O amor deve manifestar-se em obras. Nosso Senhor, além do resumo citado, deu-nos um grande conjunto de regras que especificam o que se deve fazer como expressão desse duplo amor e o que se deve evitar por ser contrário a ele. São as leis estabelecidas por Deus para orientar as nossas obras.
Devemos sempre seguir os ditames de nossa consciência? Nem sempre, o ser humano não leva no seu interior um professor infalível que lhe vai dizendo o que está bem e o que está mal.
Consciência é o juízo moral prático da inteligência. A inteligência é a própria alma considerada na sua atividade cognitiva. A inteligência faz muitos juízos. A consciência é a resposta que a alma dá a pergunta: “Que devo fazer neste caso concreto para agir retamente”.
A consciência é universalmente infalível? Infelizmente não, pois um juízo da minha inteligência pode ser, como qualquer outro juízo errôneo. A alma julga observando a lei de Deus impressa na natureza humana.
Em questões que dizem respeito ao uso correto da nossa natureza humana, a consciência, se não tem informação exterior, pode dar respostas contraditórias. A consciência, se não for ajudada pela revelação divina e da doutrina, pode dar respostas contraditórias a natureza humana.
A importância da formação da consciência
Uma pessoa deve seguir o ditame da sua consciência, o juízo da sua inteligência, para decidir o que está bem e o que está mal. Justamente por este protagonismo da consciência é absolutamente vital que ela seja bem formada.
O ser humano não possui nenhuma faculdade que lhe diga com segurança e em cada momento o que está bem e o que está mal. Sem este conhecimento, como agirá adequadamente para alcançar o seu fim? Nem todas as obras nos ajudarão para atingirmos esse fim. Só se alguém nos disser o que é bom e o que é mal saberemos fazer essa distinção. E é isto o que Deus, que nos criou, faz por nós. A Igreja proclama as suas verdades e enuncia as suas leis.
O católico conhece a lei que lhe permite agir bem, mas não basta conhecê-la, pois é possível conhecer uma lei e ainda assim desobedecê-la. Isto é o pecado. Pecado é infringir a Lei de Deus.
A infração da Lei de Deus pode ser grave ou leve, conforme se trate da rejeição categórica de Deus ou de uma simples fraqueza num assunto de menor importância. De qualquer forma, ela debilita a alma. O pecado mortal é a rejeição consciente e voluntária, em matéria grave, e morrer sem se arrepender dele depois de o ter cometido significa condenar-se eternamente. Já o pecado venial não rompe a amizade entre Deus e o homem, não condena substancialmente a alma humana, mas aumenta sua vulnerabilidade.
O pecado é pura ingratidão para com Deus, a quem devemos tanto, e os cristãos, mais do que todas as outras pessoas, sabem que lhe devem. Além disso, é uma incrível estupidez revoltar-se contra Deus. Sustentados pela mão de Deus, o pecador se mantém em pé e o desafia.
O pecador imagina-se cercado por uma muralha que o impede de atingir o seu potencial e se desenvolver. Diz para si mesmo: “Aqui estou, um ser cheio de possibilidades, repimido a cada passo por uma lei absurda”. Semelhante pensamento é consequência de um entendimento defeituoso do que são as leis de Deus. Elas não são meros caprichos, como poderiam ser as de um ditador estúpido, mas a expressão do conhecimento que o próprio Deus tem da natureza humana e do destino da humanidade.
Deus sabe como é o homem, pois Ele o criou. Sabe, pela mesma razão, para que o ser humano está feito. Assim, as leis de Deus são uma declaração precisa do que o ser humano deve fazer para evitar a própria destruição e para cumprir a sua missão na terra.
As leis de Deus poderiam ser consideradas como instruções do fabricante para a utilização correta do nosso ser. As suas proibições alertam-nos sobre as formas inadequadas em que poderiamos utilizar-nos a nós mesmos e ao próximo.
O uso inadequado de algo gera a sua própria destruição.
A Lei de Deus não está fora de nós. O seu conhecimento nos vem de fora, mas a Lei em si mesma está, em certo sentido, em todo o nosso ser. Portanto, qualquer obra que se atente contra a Lei de Deus atentará também contra a nossa natureza e, será, autodestruidora. É um ato que Ele, Criador do “eu”, declarou contrário a natureza humana. Uma pessoa que peca é menos pessoa, tal como uma automóvel utilizado como galinheiro é menos automóvel.
O amor é ação, não sentimento
Para provarmos o nosso amor a Deus, precisamos fazer o que Ele quer que façamos, sendo o tipo de ser humano que Ele quer que sejamos. O amor a Deus não está sobretudo nos sentimentos. Amar a Deus não significa que o nosso coração deva dar saltos cada vez que pensamos nEle. Algumas pessoas poderão sentir o seu amor a Deus de modo emotivo, mas não é o essencial. Porque o amor a Deus reside na vontade. Provamos o nosso amor a Deus não pelo que sentimos por Ele, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele.
Mas o amor não se dá sem prévio conhecimento: é indispensável conhecer a Deus para poder amá-lo. E não é amor verdadeiro aquele que não se manifesta em obras, fazendo o que o amado quer. Assim, devemos também servir a Deus.
Temos que começar a amar a Deus aqui ainda nesta vida. Se não começarmos a amar a Deus nesta vida, não haverá maneira de nos unirmos a Ele na eternidade.




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